sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Em sépia

 


Escrever argila como se fosse uma metáfora para um sonho dissoluto, divinizando amores antigos, ou como quem vai por um caminho em distância segura com o vento dissipando nuvens. Ou fazer um retrato em sépia, do corpo no escuro, embaçado; ou me perguntar como seria um disfarce que não convenha ao olho mágico, ainda que distraidamente virtual; ou pincelar uma janela para ver o mundo em 360 graus; ou ainda retocar o gozo do corpo pornograficamente pincelado ronronando por toda a noite quando me rendo como se viesses às minhas mãos para revirar a tua pele como se fosses a argila nos gestos que nos pertencem em preliminares que arranham paredes e portas e galgam os muros da madrugada.


José Carlos Sant Anna


quarta-feira, 24 de novembro de 2021

As velhinhas de Copacabana - Texto de David Coimbra



Todas as manhãs, cinco senhoras vão passear com seus cachorros na Avenida Atlântica, na altura da Constante Ramos. São cinco velhinhas. Os cachorros, de pequeno porte; uns mais peludos, outros mais compridos, nenhum deles maior do que um gato. Uma das velhinhas tem três cachorros. Dois ficam brincando em volta dela, um se empoleira em seu ombro, como se fosse um papagaio. É interessante assistir àquela velhinha conversando com tanta naturalidade com um cachorro no ombro. Não há nenhuma tensão nela, nem vertigem no cachorro.

As velhinhas, na verdade, elas não passeiam pela avenida. Ficam sentadas nos bancos da famosa calçada de Copacabana, conversando. Reparei na aragem vivaz que as envolve. Às vezes uma deixa escapar uma risada maliciosa, e aí não parece que estão tendo conversas de velhinhas. E foi então que pensei: O que seriam conversas de velhinhas? Sobre os netos? Sobre tricô? Sobre a novela?

Não, não, aquelas velhinhas passam a impressão de estar falando sobre coisas mais... Interessantes. Não que falar sobre netos não seja interessante, eu aqui adoro crianças, mas o jeito delas, a forma como riem... não, definitivamente, não é sobre netos que falam. Assuntos escusos. É o que parece. Seus assuntos são escusos. O que lhes embala as manhãs ensolaradas de Copacabana é o pecado de outrora. Porque você olha para uma senhora em idade provecta, para seu vestido floreado e para seus cabelos encanecidos, e no que você pensa? Que ali vai uma vozinha inocente, que naquele mesmo instante está planejando o bolo que fará para os netinhos, que ela se escandalizaria com as loucuras dos jovens nas baladas de hoje.

É isso que você pensa.

Mas olhe bem. Olhe como olhei para as velhinhas de Copacabana. Algumas ainda preservam os traços graciosos da juventude. Imaginei que, pelo menos uma delas sentada de pernas cruzadas no banco de pedra, devia ter sido uma beleza explosiva por volta dos vinte anos, trinta anos.

Lembrei-me da crônica imortal de Rubem Braga:

“Ai, ti Copacabana! Os gentios de teus morros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão!".

Ah, os pecados dos verões dessas cândidas senhoras de Copacabana. Imagino-as vindo pela Constante Ramos dentro de seus biquínis sumários nos anos 60 ou 70, que nos anos 60 ou 70 já havia biquínis sumários. Imagino-as ondulando em direção ao Atlântico, pisando com pezinhos 36 a areia fofa e quente, e os homens, em volta, olhando e comentando. Quantos pecados não terão cometido essas velhinhas nesse tempo? Mais, muito mais, do que as meninas do Facebook. E é disso que elas falam. Dos seus pecados do passado. Por isso sorriem, maliciosas. Elas se lembras de coisas. Elas sabem das coisas.

Rio de Janeiro, junho de 2013


COIMBRA, David. Vômito de abelhas. In: As velhinhas de Copacabana e outras 49 crônicas que gostei de escrever. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 19.


sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Gaúcho bom de crônica

 

[...]

[...] na Primavera, as flores desabrocham e se colorem e liberam seus olores, o que tem a ver, exata e precisamente, com as abelhas. É que elas, as flores, enfeitam-se e perfumam-se todas pelo mesmo motivo que as fêmeas se enfeitam e se perfumam: para se tornarem atraentes. No caso das flores, óbvio, elas não pretendem atrair nenhum galalau barbudo de vinte e poucos anos de idade, e sim... as abelhas! São as abelhas que, ao sugar o néctar, se roçam no pólen, que fica grudado aos seus pequenos pés. Como elas passam o dia de flor em flor, levam pólen de uma para a outra. E o pólen é, toscamente definindo, o esperma das flores. Logo, as abelhas que fecundam as flores. Quando você vê uma abelha numa flor está de certa forma, vendo uma cena de sexo vegetal, com a inclusão de um animal.
A primavera é mesmo uma festa.

COIMBRA, David. Vômito de abelhas. In: As velhinhas de Copacabana e outras 49 crônicas que gostei de escrever. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 152.


Acabo de ler as crônicas de David Coimbra  escritor, jornalista e... – enfeixadas no livro As velhinhas de Copacabana e outras 49 crônicas que gostei de escrever, diz Coimbra.
Se Coimbra gostou de escrevê-las, confesso, gostei de lê-las. São de uma leveza que, uma vez começada a leitura, quase impossível interrompê-la. O texto de Coimbra é excelente, mesmo transitando pelo difícil caminho da crônica, por onde muitos se aventuraram e poucos conseguiram chegar a um gran finale prima de sparire
Coimbra está de fato à altura do grande mestre Rubem Braga, como bem o disse o jornalista Chico Castro ao trazer-me um exemplar desembrulhado, como sempre o faz, para dar-me livro de presente. Para ele, ainda não inventaram papel de presente. Ou as sacolas igualmente de papel.
Sempre faço um ar de surpresa com seu jeito tosco, irreverente, de presentear-me, ao que ele me diz: "O Sr. não vai lê-lo embrulhado, não é?". 
E se afasta rindo para apanhar uma garrafa de vinho na minha adega. Ele conhece o caminho das pedras. Tanto o conhece que levou minha filha para morar com ele. É o que se  chama de sujeito esperto!
David Coimbra já publicou A cantada infalível (contos), Um trem para a Suíça (crônicas, reportagens e histórias de viagens), Canibais (romance, seu primeiro romance), dentre outros.
Vale a pena conferir!  

(José Carlos Sant Anna)