quarta-feira, 24 de novembro de 2021

As velhinhas de Copacabana - Texto de David Coimbra



Todas as manhãs, cinco senhoras vão passear com seus cachorros na Avenida Atlântica, na altura da Constante Ramos. São cinco velhinhas. Os cachorros, de pequeno porte; uns mais peludos, outros mais compridos, nenhum deles maior do que um gato. Uma das velhinhas tem três cachorros. Dois ficam brincando em volta dela, um se empoleira em seu ombro, como se fosse um papagaio. É interessante assistir àquela velhinha conversando com tanta naturalidade com um cachorro no ombro. Não há nenhuma tensão nela, nem vertigem no cachorro.

As velhinhas, na verdade, elas não passeiam pela avenida. Ficam sentadas nos bancos da famosa calçada de Copacabana, conversando. Reparei na aragem vivaz que as envolve. Às vezes uma deixa escapar uma risada maliciosa, e aí não parece que estão tendo conversas de velhinhas. E foi então que pensei: O que seriam conversas de velhinhas? Sobre os netos? Sobre tricô? Sobre a novela?

Não, não, aquelas velhinhas passam a impressão de estar falando sobre coisas mais... Interessantes. Não que falar sobre netos não seja interessante, eu aqui adoro crianças, mas o jeito delas, a forma como riem... não, definitivamente, não é sobre netos que falam. Assuntos escusos. É o que parece. Seus assuntos são escusos. O que lhes embala as manhãs ensolaradas de Copacabana é o pecado de outrora. Porque você olha para uma senhora em idade provecta, para seu vestido floreado e para seus cabelos encanecidos, e no que você pensa? Que ali vai uma vozinha inocente, que naquele mesmo instante está planejando o bolo que fará para os netinhos, que ela se escandalizaria com as loucuras dos jovens nas baladas de hoje.

É isso que você pensa.

Mas olhe bem. Olhe como olhei para as velhinhas de Copacabana. Algumas ainda preservam os traços graciosos da juventude. Imaginei que, pelo menos uma delas sentada de pernas cruzadas no banco de pedra, devia ter sido uma beleza explosiva por volta dos vinte anos, trinta anos.

Lembrei-me da crônica imortal de Rubem Braga:

“Ai, ti Copacabana! Os gentios de teus morros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão!".

Ah, os pecados dos verões dessas cândidas senhoras de Copacabana. Imagino-as vindo pela Constante Ramos dentro de seus biquínis sumários nos anos 60 ou 70, que nos anos 60 ou 70 já havia biquínis sumários. Imagino-as ondulando em direção ao Atlântico, pisando com pezinhos 36 a areia fofa e quente, e os homens, em volta, olhando e comentando. Quantos pecados não terão cometido essas velhinhas nesse tempo? Mais, muito mais, do que as meninas do Facebook. E é disso que elas falam. Dos seus pecados do passado. Por isso sorriem, maliciosas. Elas se lembras de coisas. Elas sabem das coisas.

Rio de Janeiro, junho de 2013


COIMBRA, David. Vômito de abelhas. In: As velhinhas de Copacabana e outras 49 crônicas que gostei de escrever. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 19.


6 comentários:

  1. Simplesmente delicioso este texto, amigo José Carlos. Adorei o lado picaresco da situação.
    E porque haveriam as "velhinhas" de falar somente nos netos, bisnetos, bolo de fubá, tricot ou das dores nas articulações se elas não foram sempre "velhinhas"? Digo mais; estão em vantagem pois têm toda uma vivência da juventude para relembrar, coisa que os jovens de hoje não têm nem sabem se terão. É delas, o passado e o presente. O futuro? Quem sabe o que será?
    Vai ver uma delas até será a famosa Musa inspiradora da canção, 'Garota de Ipanema'. "Olha que coisa mais linda/Mais cheia de graça/É ela, menina/Que vem e que passa/Num doce balanço/Caminho do mar."

    Beijinhos e tudo de bom.

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    1. Promessa cumprida, amiga Janita! Agora musa de a Garota de Ipanema, não. Tenho certeza disso, risos. Mas estamos diante de um texto tão verossímil, não é verdade? Quase tocamos “as velhinhas” animadas, tagarelando na calçada da avenida Atlântica. E logo ali, depois da Avenida Atlântica, no Leblon, encontraremos o bar Garota de Ipanema. Bom é saber que você gostou do jeito descontraído que David Coimbra tratou este tema, de forma delicada, em tomo de pilhéria, de brincadeira, o que nos permitiu imaginar o que ainda se passa na cabeça dos idosos. Só não gostei do substantivo “velhinhas”, mas relevei porque nem tudo é perfeito...
      Boa noite,
      Um abraço,

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  2. hahaha, muito bom, eu adoro velhinhas, não só as de Copacabana, mas as velhinhas do Brasil inteiro, são sapecas! O que mais gostam de falar é no passado:
    "...na minha época era assim, era assado!" E baixam o 'sarrafo' onde podem, mas com aquela malícia gostosa, com aqueles olhinhos que se reviram. E fora isso, dão para todas as amigas receitas para todas as doenças do mundo! Conheço muitas velhinhas de Copacabana, e nada de santinhas! Têm a seu favor uma vida inteira de observação de tudo. Já viveram bastante, nada mais devem, por isso que são muito interessantes e com língua solta.
    Eu sabia que você traria um texto muito gostoso! E o vídeo? Que maravilha! Fazia um bom tempo que não escutava. Copacabana tem aquele 'clima' humano muito especial.
    Bem, vejo que o 'Diário das alegrias breves' vem com roupagem que José Carlos vai impor, esse vai ficar, né meu amigo? Que bom!
    E David Coimbra sabe disso! Qual brasileiro não sabe?
    Um restinho de semana feliz!
    Um beijo

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    1. Também adoro ouvir. E brincar. Ouvir sobretudo as velhinhas de qualquer sítio. E elas gostam de conversar entre si e com os mais os mais “jovens”, risos. É o meu caso. Ah, a minha mãe, quantas vezes ela caiu, quantas, meu Deus, na história do Correio. Eu chegava no portão e gritava: "Correio". E ela saía esbaforida para chegar ao portão e receber as correspondências... Então, eu perguntava: “esperando carta de quem, posso saber?” Ela me respondia de sua “mãe”, desocupado! E entrávamos sorrindo. Eu ia vê-la três ou quatro vezes por semana e ficávamos horas sem fim jogando conversa fora. E. no outro dia, a história se repetia porque ela esquecia e não queria deixar o carteiro ir-se sem fazer o seu trabalho... Neste momento, ela está sorrindo ao ver-me rememorando nossas histórias... Brincar e ouvir... com crianças e idosos não há coisa melhor... Uau! Quase esqueci de David Coimbra, e dizer mais o quê? Ele é bom no meio de campo com as palavras, os “avançados” se dão bem e não ficam angustiados porque sabem que as crônicas vêm "redondinhas..."
      Um beijo, minha amiga Taís.
      Obrigado pelas palavras sempre generosas!

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  3. Ai, de ti Copacabana! quem nunca desejou sentar naquelas areias brancas a ver desfilar as meninas com seus biquinis e pernas douradas , quem? rs O autor conseguiu dar vida as velhinhas mirando nas meninas de ontem, tão cheias de graça e pecado ...E , envolveu-as numa 'aragem vivaz', esse frescor que todas as velhinhas desejam .rs Gostei muito Jcarlos e vamos querer mais.Vou tentar adquirir as crônicas dos relatos de viagens do 'Um Trem para a Suiça ou ler no Google Books. Deve ser interessante para quem viaja para o lado de lá., perceber outro olhar sobre essas aventuras, longe do nosso cenário.
    Bela escolha e arremate do texto com a belíssima e decantada Copacabana e o vídeo que tem paisagens ,de só encantamento.
    Obrigada por trazer o comentado jornalista e escritor David Coimbra. Isso,não sair sem dizer que prefiro mais o Jose Carlos Sant Anna (risos)
    Meu abraço

    p.s - estava em trânsito e só conseguia ler, até até tentei publicar e o iPhone não aceitou.

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    1. Risos, se eu fosse pelo menos um aprendiz de feiticeiro, já poderia ombrear-me com David Coimbra. "As velhinhas" de Copacabana pelo menos são motivo de regozijo neste pequeno círculo. A leveza de David Coimbra se espraia pelos seus livros. Haverá sempre um motivo para sorrir em suas crônicas, ainda que esteja em trânsito ou em transe, risos. Qualquer um deles que você apanhar para ler será apanhada pelo bom humor desentranhado expandindo luas...
      Obrigado pela tua presença!
      Um abraço, Lis!

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